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BLOG - O TOC de Mary

19Jul2016

Mary esteve no meu consultório na semana passada e me perguntou se eu já havia publicado o seu caso no site. Fez um lifting há 20 dias, está mais magra, trabalhando,  satisfeita consigo mesma e com o progresso que conquistou nos últimos 3 anos, por isso me intimou a compartilhá-lo com outras pessoas.

Um relato de caso é sempre interessante, mas fico pensando em quantas intervenções,  num caso difícil e complexo como esse, são esquecidas e deixadas para traz na hora de descrevê-lo. Contudo, a alegria de ver a minha paciente recuperar sua auto-estima e voltar a viver uma vida equilibrada, me fez aceitar o desafio.

Mary me procurou pela 1a vez em maio de 2011 e já fazia tratamento psiquiátrico há 10 anos, de forma irregular,  por isso, com resposta insatisfatória. Filha de pai alcóolatra e mãe bipolar grave, com uma irmã também bipolar, teve uma infância conturbada e presenciava inúmeras brigas, com agressões físicas e verbais, especialmente quando o pai se embriagava. Mary  costumava esconder-se atrás das cortinas, com muito medo. Refere que, nessa época,  ela já apresentava mania de conferir o botão de gás e durante a adolescência, passou a exagerar no consumo de bebidas alcóolicas.

Contudo, foi há 10 anos atrás, já casada, que seu quadro apareceu com toda força.

Mary contou que seu marido foi a “tábua de salvação da sua vida”, porque ela nunca gostou de estudar e queria muito sair da casa dos pais. Casou-se cheia de esperanças, teve uma filha e adotou um cão. Viviam muito bem até que ela e o marido contraíram uma virose, com muita febre e dores intensas no corpo. A virose acabou e levou junto o encantamento do casamento, seu marido mudara totalmente e passou a tratá-la friamente, sem diálogos, carícias ou passeios.  Mary relata que sentiu-se excluída da sua própria história e totalmente incapaz de sair dela. O relacionamento com a filha também ficou péssimo.

A partir de então, surgiu um quadro caracterizado por pensamentos de morte e menos-valia, desesperança e tristeza. Apareceram manias  de conferir outdoors nas ruas e decorar todo o texto, caso contrário,  obrigava-se a voltar ao local e lê-los novamente, fazia o mesmo com panfletos que catava. Além disso, enquanto assitia as novelas, precisava lembrar-se dos nomes de todos os atores e quando isso não acontecia, ficava aflita e procurava desesperadamente nas revistas ou ligava para pessoas que pudessem saber. Estas tarefas tomavam quase todo o seu tempo e no intervalos, ia para o bar da esquina e refugiava-se nas bebidas, com o pretexto de relaxar e preencher o seu vazio. Em função desse distúrbio, sua loja faliu e sua vida familiar que já era ruim, ficou pior. A morte do seu cão foi a gota d’água.  E assim, Mary chegou ao consultório.

Na ocasião, a paciente tinha 48 anos, estava 15 kgs acima do peso, hipertensa e com alterações metabólicas. Apresentava-se totalmente desiludida com a vida e desacreditada de si mesma, apesar de estar usando medicação antidepressiva.

O TOC (Transtorno Obsessivo-compulsivo) é caracterizado por obsessões e/ou compulsões recorrentes e suficientemente graves para consumirem muito tempo ou causarem sofrimento acentuado ou prejuízo significativo. As obsessões são pensamentos inadequados repetitivos que causam ansiedade extrema e as compulsões são comportamentos repetitivos ou atos mentais como orar, contar etc, cujo objetivo é previnir ou reduzir a ansiedade causada pelos pensamentos. O TOC pode estar associado a diversas patologias como Transtorno Depressivo, Transtornos de Ansiedade, Transtornos de Alimentação e outros. Geralmente,  inicia na adolescência, contudo pode iniciar na infância.

O tratamento de Mary foi programado de forma holística. Era necessário tirá-la do quadro depressivo, do TOC e fazê-la parar de beber, porém, era igualmente importante que ocorresse uma verdadeira tranformação no seu estilo de vida e no pensamento que ela tinha a respeito de si mesma. Entendi que juntamente com a abordagem medicamentosa, a paciente precisava de total apoio para voltar a acreditar em si própria. Portanto, propus também psicoterapia, terapia ocupacional, como artesanato, que ajudou muito, e atividade física regular. Conseguimos criar um bom rapport, o que foi fundamental para que ela aderisse às minhas orientações. Fiz mudanças nas medicações  ao longo dos meses e algumas associações para atingir as comorbidades.

Apesar do ambiente de casa permanecer como um fator de muita contrariedade e estresse, um ano depois, o TOC remitiu totalmente. Após tentativas e recaídas, Mary conseguiu parar de beber dois anos após o início de tratamento. Imediatamente, perdeu bastante peso e ganhou mais auto-confiança. As alterações nos níveis glicêmicos, de colesterol e triglicerídeos remitiram.

Atualmente, Mary realmente parece outra mulher, voltou a ser paquerada nas ruas, conseguiu reerguer seu comércio, está bastante satisfeita com a sua imagem, formula planos para o futuro e mais importante que tudo, está consciente de que  precisa respeitar a  si mesma e manter-se saudável. Foi um processo difícil e dolorido, mas bastante gratificante.

Posso afirmar que Mary é uma vencedora!

 

Obs. O nome dado à paciente é fictício.