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BLOG - Esse estranho sentimento chamado Depressão

24Jul2016

A depressão é uma doença multicausal, com forte componente genético em sua etiologia, mas bastante influenciada pelo meio em que vivemos. Nos tornamos a espécie dominante e o desenvolvimento de habilidades sociais, capacidade de raciocínio, modulação dos afetos, noções de ética e sofisticação da linguagem são reflexos da evolução da mente humana. Portanto, a cultura, as idéias e as crenças influenciam sobremaneira os pensamentos e podem ser importantes componentes do adoecimento mental.

O termo estresse foi descrito pela primeira vez pelo fisiologista canadense Hans Selye, como a síndrome geral da adaptação, na primeira metade do século 20, usou uma definição da física e definiu como o grau de deformidade sofrido por um material quando submetido a um esforço ou tensão. Em 1988, esse mesmo autor o redefiniu como: o estresse é o resutado do homem criar uma civilização, que , ele próprio, não consegue suportar”.

O organismo precisa reajustar-se constantemente para adequar suas necessidades ao ambiente em que vive, esse processo é chamado de alostase, onde o organismo tem que procurar uma estabilidade em meio a sua constante mudança. Este intercâmbio dinâmico entre organismo e o meio em que vive, é determinado por fatores biológicos mas é fortemente influenciado pelos pensamentos.

Os pricípios mediadores da alostase são os hormônios do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), as catecolaminas e as citocinas. Uma situação de “ameaça’ que demanda esta reação do organismo vai levar a uma resposta inicial do locus coeruleus, núcleo que concentra a maior parte dos neurônios noradrenérgicos cerebrais, com liberação de noradrenalina. A segunda resposta mais lenta é do eixo HHA, cujo produto final é o cortisol produzido pela suprarrenal. Este mecanismo é utilizado por várias espécies além do ser humano, como forma de sobreviver, porém, quando frequentemente acionado, promove prejuízos em vários outros sistemas como aumento da resistência insulínica e maior tendência ao diabetes, aterosclerose e problemas cardiovasculares, maior deposição de gordura visceral, osteoporose,  alterações da imunidade e depressão.

A depressão está altamente relacionada a um aumento da produção do cortisol, por uma diminuição da sensibilidade dos receptores de glicocorticoides, sinal inequivoco do papel do estresse no processo fisiopatológico do adoecimento.

Alguns estudos demonstraram que filhotes de animais e crianças que passaram por maus tratos e situações estressantes apresentam alterações moleculares do receptor de glicocorticoide. Esta alteração ocorre devido ao processo epigenético de metilação, que faz com que a produção destes receptores de glicocorticoides esteja diminuida nas crianças (ou filhotes) que passaram por má maternagem ou por traumas. Estes fatores os tornam mais suscetíveis a ficarem depressivas frente a situações estressantes na vida adulta.

Portanto, na terapêutica é importante não somente eliminar os sintomas depressivos, mas também intervir nos possíveis fatores estressores que desencadearam ou mantiveram o quadro depressivo, por seus efeitos deletérios com o aumento da carga alostática.

O autor alemão Eckhart Tolle, em seu livro Um novo mundo, fala na identificação do indivíduo com o “corpo da dor”, como uma forma de manter o sofrimento e propõe a interrupção da identificação com o sentimento, com a antiga emoção dolorosa, de forma que a emoção deixa de ter a capacidade de controlar o pensamento e assim, de se misturar a uma história construída mentalmente chamada “Como sou infeliz”. A emoção em si não é infelicidade. A emoção associada a uma história triste é infelicidade.

Transcender ao passado e às armadilhas do pensamento construído cria a consciência de uma outra perspectiva, a dimensão da presença, do agora.

 

Para abordar e tratar a depressão,  precisamos diminuir a carga alostática com a ajuda de medicamentos adequados, porém, é fundamental criar a perspectiva  de uma mudança na maneira de gerenciar os pensamentos.

 

Fonte: Depressão e Fatores estressantes, Dr. Marcelo Feijó; Psicofarmacologia, Stalh; Um Novo Mundo, Eckhart Tolle