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BLOG - Depressão será a doença mais incapacitante em 2020.

19Set2016

Estima-se que pelo menos 350 milhões de pessoas sofram de depressão no mundo todo. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que os gastos com a depressão e a ansiedade chegam a US$ 1 trilhão por ano. A organização também já concluiu que a depressão é uma das doenças mais incapacitantes - até 2020, deve chegar ao topo da lista. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o psiquiatra Mario Francisco Juruena, membro do Comitê de Experts em Doenças Afetivas do Colégio Europeu de Neuropsicofarmacologia (ECNP) e professor da Universidade de São Paulo (USP), explica como a doença afeta o organismo e como tratamentos cada vez mais individualizados ajudam o paciente a levar uma vida normal.

Jornal do Comércio - A depressão é considerada uma das doenças mais incapacitantes do mundo. Como isso se traduz no dia a dia do paciente?

Mario Francisco Juruena - A pessoa que sofre de depressão perde trabalho, relacionamentos, enfim, perde oportunidades na vida. Além disso, é uma condição que facilita contrair outras doenças, tanto psiquiátricas como físicas, como câncer, doenças cardíacas, neurológicas e hormonais. O paciente vai perdendo saúde, o sistema nervoso central vai envelhecendo, e esse quadro causa um prejuízo não só para ele, mas para a família também. Considero que estamos perdendo a guerra contra a depressão.

JC - Diz-se que a depressão é o mal do século. Essa afirmação se confirma ou é um mito?

Juruena - Hoje, conseguimos perceber melhor o diagnóstico de quem tem depressão. Nosso estilo de vida, muito corrido, materialista e competitivo, contribui para que as pessoas desenvolvam frustrações. No Brasil, ainda lidamos com 12 milhões de desempregados, aumento de violência... Durante a infância, as crianças se sentem negligenciadas porque os pais que não têm tempo de dar atenção a elas e isso contribui para que se tornem adultos depressivos. O Brasil se considera o país da alegria, da descontração, mas é um dos países em desenvolvimento com índices mais altos de depressão. Também não temos investimentos suficientes - vemos institutos especializados em doenças do coração, do câncer, da saúde da mulher, mas nenhum voltado à depressão.

JC - A depressão causa os mesmos sintomas em todas as pessoas? É possível diferenciar?

Juruena - A depressão resistente ao tratamento é aquela em que o paciente já passou por pelo menos dois tratamentos farmacológicos integrados com psicoterapia, pelo tempo adequado, na dose adequada, e não respondeu de maneira positiva. O problema é que 50% dos casos são resistentes, e, se avaliarmos entre indivíduos que passaram por estresse precoce na infância ou adolescência, os índices sobem para até 80%. Existe um tipo de depressão chamado melancolia, que causa insônia e perda de apetite, além de muita tristeza. Outro, chamado de atípico, que é bastante comum, apesar do nome, causa compulsão por doces e carboidratos e vontade de dormir o dia inteiro. São depressões parecidas com sintomas opostos. Além disso, tem o transtorno de bipolaridade, que é o quadro da moda. O bipolar tem períodos de tristeza profunda seguidos de euforia, de agitação. Ele acelera e, de repente, desacelera, apresentando uma intensa oscilação de humor. São doenças complexas que afetam o organismo como um todo. Os psiquiatras vêm falando dos riscos há muito tempo, mas só agora os cardiologistas estão reconhecendo a associação entre depressão e patologias cardíacas, por exemplo.

JC - Quais são os últimos avanços no tratamento?

Juruena - O que se tem feito agora são estudos que se chamam diretrizes ao tratamento. Eles revisam todos os estudos que já foram feitos na literatura médica e veem os que funcionam e em quais casos específicos de depressão ou bipolaridade eles têm melhor resultado. Isso aumenta muito a eficácia dos tratamentos. Aquele paciente que não respondia antes pode ser tratado de maneira mais eficaz, porque temos evidências de que um tratamento funciona melhor que o outro. Outra questão é a parte cognitiva. O depressivo vai ter perdas em todas as áreas, na percepção, na concentração, na memória. Com uma série de testes, conseguimos determinar tratamentos específicos para amenizar essa perda cognitiva.

JC - É possível falar em cura do quadro depressivo?

Juruena - Em muitos casos, principalmente os mais leves e moderados, conseguimos uma cura. É importante que os pacientes sigam os cuidados. Tenho alguns pacientes que estavam bem há seis meses e, por conta própria, decidiram diminuir as doses dos medicamentos. Assim, os sintomas voltaram. Algumas vezes, diminuímos os medicamentos, a pessoa fica só no tratamento psicoterápico e evolui. Os casos mais graves geralmente precisam de um tempo mais longo. No entanto, enquanto estão medicados, todos conseguem fazer suas atividades - isso se chama remissão de sintomas. Enquanto está em tratamento, o paciente leva uma vida 100% igual às pessoas que não possuem esses problemas.

 

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