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BLOG - A atrofia do hipocampo na depressão não é necessariamente doença de Alzheimer

19Set2016

A diminuição do volume do hipocampo que ocorre no quadro de depressão tardia não tem nenhuma associação com os níveis de depósito amiloide, indicando que a redução do volume do hipocampo pode não constituir necessariamente um sinal de doença de Alzheimer, de acordo com uma nova pesquisa.

"O menor volume do hipocampo não foi relacionado com doença amiloide nesta amostra de pacientes com quadro de depressão tardia", escrevem os autores.

"Estes dados contrariam a crença de que as alterações do volume do hipocampo na depressão tardia sejam um pródromo da doença de Alzheimer", acrescentam.

Estes resultados são provenientes de um estudo publicado online em 19 de agosto no American Journal of Psychiatry.

Estes resultados têm implicações clínicas importantes, pois o volume do hipocampo é uma medida utilizada de rotina na avaliação diagnóstica dos pacientes com doença de Alzheimer, disse  ao Medscapeo autor sênior do artigo, o Dr. Mathieu Vandenbulcke, médico do Departamento de Psiquiatria do Idoso, do Universitair Psychiatrisch Centrum KU Leuven, na Bélgica.

"O significado clínico disso é que os médicos devem ter cuidado ao interpretar discretas alterações do volume do hipocampo, quando suspeitarem de doença de Alzheimer em pacientes com depressão tardia", disse ele.

Mudanças observadas no cérebro dos pacientes com quadro depressivo

Este estudo foi realizado com 100 pacientes de mais de 60 anos de idade, recrutados no Departamento de Psiquiatria do Idoso do Universitair Psychiatrisch Centrum KU Leuven, na Bélgica. Dentre os participantes, 48 eram idosos na vigência de quadro depressivo e 52 eram R03;R03;pessoas saudáveis formando o grupo de controle pareado por idade e sexo.

Os exames de ressonância magnética nuclear estrutural, tomografia por emissão de pósitrons com compostos marcados por flutemetamol [18F] para obtenção de imagem dos depósitos amiloides no tecido cerebral, genotipagem da apolipoproteína E e avaliação neurofísica mostraram que havia diferenças significativas da média normalizada do volume total do hipocampo entre as pessoas que estavam e as que não estavam com quadro de depressão ativa (P = 0,02).

Não houve diferença entre os dois grupos no que diz respeito à captação cortical amiloide ou à proporção de pacientes com resultados positivos de depósitos amiloides. Os depósitos amiloides são considerados patognomônicos da doença de Alzheimer.

Após a exclusão das pessoas com resultados positivos de depósitos amiloides, os participantes com quadro de depressão ainda apresentaram maior redução do volume do hipocampo. Além disso, não foi observada nenhuma associação entre o volume do hipocampo e a captação de amiloides nos dois grupos.

Várias teorias para explicar os achados

Já está bem documentado que ocorre redução do volume do hipocampo na depressão tardia. Há suspeitas que esta redução esteja relacionada com a doença de Alzheimer, porque ela se caracteriza pela atrofia do hipocampo, e porque a doença de Alzheimer costuma ser precedida por depressão tardia.

Na ausência de doença amiloide, as teorias alternativas para a perda de volume do hipocampo na depressão tardia e incluem a suspeita de doença não amiloide. Isto poderia explicar a relação conhecida entre a perda de volume e o aumento do risco de demência na depressão tardia, explicam os autores.

Acredita-se também que o comprometimento vascular possa desempenhar algum papel nas alterações cerebrais não amiloides. Este novo estudo não encontrou nenhuma associação entre a hiperintensidade da substância branca e o volume do hipocampo.

Outra teoria é a hipótese do estresse, segundo a qual a perda de volume do hipocampo poderia resultar de mecanismos relacionados com o estresse, como os efeitos tóxicos decorrentes do aumento dos níveis de cortisol. Esta teoria é corroborada por alguns estudos que correlacionam a duração mais prolongada da depressão com um menor volume do hipocampo.

Entretanto, o Dr. Vandenbulcke ressaltou que o novo estudo não encontrou evidências de diminuição significativa do volume do hipocampo em um subgrupo de pacientes mais jovens com depressão (início antes dos 55 anos, 42%) em comparação à depressão de início tardio.

Contudo, outra teoria referente à diminuição do hipocampo na depressão tardia é a "hipótese da vulnerabilidade", segundo a qual a preexistência de menor volume do hipocampo pode ser a própria causa da suscetibilidade à depressão e ao estresse, em vez de sua consequência.

"Como o hipocampo participa da regulação do estresse e da emoção, é plausível que a diminuição do seu volume predisponha à depressão", explicou o Dr. Vandenbulcke.

"Além disso, o envelhecimento fisiológico também está associado a discretas alterações de volume do hipocampo. Estes efeitos podem ser cumulativos, levando ao aumento do risco de depressão tardia, junto com os estressores psicossociais relacionados com a idade", disse ele.

Os autores destacam acreditar que o estudo seja o primeiro estudo prospectivo a usar imagens de substância amiloide em pacientes com quadro de depressão ativa no momento da captura da imagem.

"De modo geral, devemos dedicar mais pesquisas ao estudo do valor diagnóstico dos exames de imagem para a diferenciação entre a doença de Alzheimer e os transtornos psiquiátricos tardios", diz o Dr. Vandenbulcke.

O Dr. Vandenbulcke recebeu financiamento da Research Foundation Flanders. Os conflitos de interesse dos outros autores estão listados no artigo original.

Am J Psychiatry. Publicado online em 19 de agosto de 2016. Resumo