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04Out2016

Você se sente culpado(a)?
Atendo uma paciente que vem fazendo tratamento para ansiedade e depressão há alguns meses, com um quadro de insônia crônica, sobressaltos à noite, apreensão, pensamentos pessimistas, de que tudo vai dar errado na sua vida, baixa auto-estima, tristeza, angústia, desânimo para atividades habituais, alterações intestinais e medo de engolir a própria língua, especialmente quando fica mais nervosa.
Com o uso das medicações, nove dos 10 sintomas remitiram ou melhoraram muito, exceto o medo de engolir a língua, seja enquanto fala ou quando está fazendo as refeições. A persistência desse único sintoma me fez conduzir o caso para uma abordagem cognitiva integral, na intenção de descobrir sentimentos ou crenças que pudessem estar contribuindo para a manutenção do seu estado fóbico.
À medida que fomos aprofundando o conhecimento da maneira como ela pensa e age, descobrimos um sentimento profundo de culpa. A relação com a mãe nunca foi boa, havia um grau de exigência enorme e nada do que ela fazia parecia bom ou adequado para a mãe. Cresceu com a sensação de impotência e frustração, e a mãe por sua vez, sempre se colocava como vítima, especialmente quando sua vontade não era atendida.
Essa relação gerou na paciente um sentimento de culpa que persiste forte até hoje e a persegue em todos os momentos, promovendo um estado constante de desconforto e mal estar. Recorda-se que, quando viaja e começa a se divertir, sobrepõe-se um desconforto físico e mental, com suores frios, dor de barriga e a sensação de inadequação, fruto da ideia de que não merecia estar ali. 
Nesse caso, começamos a “mapear” sua culpa até atingirmos toda a profundidade e dimensão. A paciente pode constatar o quão entranhada ela estava, determinando seus comportamentos e seu estado de humor, contribuindo para a manutenção dos seus medos.
O sentimento de culpa é necessário para balizar as ações, impõe limites muitas vezes necessários para não magoar ou ferir o outro, conduz ao arrependimento pelos erros cometidos e estimula o tão nobre pedido de desculpas. Certamente, a culpa é fundamental para relações civilizadas, contudo, quando prevalece e domina a mente do indivíduo, torna-se limitante e até mesmo doentia. 
Reflita sobre o seu comportamento e avalie a influência da culpa nas suas atitudes. Há um tempo para arrepender-se, mas é preciso perdoar-se para seguir adiante.