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BLOG - É impossível ser feliz sozinho?

21Out2016

Mary tem 42 anos, é servidora pública, Paul é dentista aposentado,  tem 58 anos , Evelyn tem 60 anos, aposentada.

Todos os três pacientes sofrem do mesmo mal, sentem-se  tristes por estarem solteiros.

Mary chegou ao consultório aos prantos e dizia que queria morrer porque sua vida parecia não ter nenhum sentido. Durante as Olimpíadas, conheceu um estrangeiro e começaram a namorar, as afinidades entre eles eram tantas que pareciam se conhecer de outras encarnações. Sem falar  do sexo que os levava às nuvens. Nem a dificuldade de conversar, pois ele é francês, foi empecilho para tamanha paixão. Porém, os jogos acabaram e levaram  todas as expectativas de Mary. Ela já achou que havia encontrado o seu príncipe encantado, a sua cara metade, o grande e definitivo amor da sua vida e todos aqueles sonhos dignos de uma verdadeira cinderela.

Quando o seu novo amor se foi, seu mundo caiu, o céu ficou cinza, sentiu como tivessem roubado sua alma.

“Quero morrer, não sei viver sozinha”, foi a frase que expressou o seu sentimento.

Com Paul, não é muito diferente e ele é homossexual e sempre atribui as suas crises de depressão, ao fato de seu ex ter rompido o namoro após 8 anos juntos. Mesmo reconhecendo que o ex namorado era “chatíssimo, egoísta e que o relacionamento era péssimo”, Paul acredita que é melhor estar mal acompanhado do que só com ele próprio.

 

Evelyn ficou viúva muito cedo e dedicou-se muito à carreira. O tempo passou e o desejo de ser mãe foi ficando cada vez mais em segundo plano. Atualmente, embora tenha uma vida social intensa e possa viajar pelo mundo todo ano, Evelyn acredita que o fato de não ter reconstituído a sua vida familiar, com marido e três filhos, como sonhava, é a causa da sua profunda tristeza.

 

De fato, a sensação de solidão pode ser bastante desconfortável, especialmente se utilizamos idéias e crenças que são ensinadas a nós desde a  infância, como que precisamos casar, ter filhos, nos apegarmos aos amigos, nos agregarmos aos familiares, custe o que custar. Somos induzidos a acreditar que não há nenhuma possibilidade de sermos felizes fora destes padrões muito bem retratados nas propagandas de margarina.

 

Porém, a realidade é um pouco diferente, o marido arruma outra, a namorada muda de país, o companheiro de muitos anos morre precocemente etc e a vida vai revelando sem retoques que não há padrão que resista aos seus percalços.  Quando a verdade aparece, e ela sempre aparece, para onde vai a ilusão de “ter alguém” e ser feliz para sempre?

 

É necessário refletirmos que nem tudo que é ensinado e imposto pela nossa cultura, religião ou crença corresponde à realidade. Precisamos pensar a respeito de outros paradigmas. A idéia de que só seremos felizes se vivermos dentro do padrão é uma ilusão e muito frequentemente leva à frustração e à infelicidade. Primeiro porque nem todos os casamentos são felizes, talvez a maioria das pessoas os mantenha por medo de ficarem sozinhas. Segundo,  porque mesmo felizes, as relações não são eternas. E por último, porque mesmo aquelas pessoas que estão vivendo um bom relacionamento, não se sentem plenamente felizes. Todos temos problemas e frustrações. É uma ilusão acreditar que há uma condição de total realização.

 

A sensação de incompletude, de que falta algo,  é inerente à  condição humana. É uma fantasia acharmos que se tivermos isso ou aquilo, se formos casados ou com filhos, ricos e poderosos, seremos plenamente felizes e satisfeitos, porque sempre faltará algo.  A sensação da falta persistirá, se não tivermos a plena consciência de que não podemos preenchê-la com algo externo.

 

Assumir este estado humano do incompleto e acatá-lo com serenidade e certeza, pode mudar o rumo das nossas vidas. Porque, uma vez conscientes desta verdade, podemos buscar a alegria  que há dentro de nós, sem subterfúgios. Temos uma fonte inesgotável de energia internamente e a nossa verdadeira identidade pertence ao nosso mundo interior.

 

Praticar o contentamento é valorizar o que temos de saudável, é  brincar alegremente com o que conquistamos.  Realizar o auto respeito e respeitar o próximo, e  trazer elementos de paz e alegrias para as nossas vidas, pode ser fonte de muita satisfação e acima de tudo de mais equilíbrio emocional.