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BLOG - Inflamação pode ser um biomarcador preciso para o transtorno bipolar

31Jan2017

Níveis de proteína C-reativa (PCR), um conhecido biomarcador da inflamação, estão elevados em todos os estados de humor em pacientes com transtorno bipolar, com os maiores níveis ocorrendo durante os períodos de mania, mostra nova pesquisa.

"Na minha opinião, a PCR é uma grande promessa como biomarcador, ajudando a definir quem mais se beneficiaria de tratamentos que têm como alvo a inflamação, que é um dos principais objetivos da medicina de precisão – estabelecer quem vai e quem não vai se beneficiar de cada tratamento", disse ao Medscape a autora sênior Brisa S. Fernandes, da Deakin University School of Medicine, em Geelong (Austrália).

O estudo foi publicado on-line em 9 de novembro no Lancet Psychiatry.

Triagem pela PCR?

Atualmente, não existem biomarcadores confiáveis para o transtorno bipolar, embora evidências apontam para a proteína C-reativa como uma possível candidata. De acordo com a "hipótese imunológica", um aumento na ativação imune poderia estar associado a uma série de doenças psiquiátricas, incluindo o transtorno bipolar.

Para a meta-análise e revisão sistêmica, os autores identificaram 27 estudos que incluíram 2161 pacientes com transtorno bipolar e 81.932 pessoas como controles saudáveis.

A avaliação dos dados relacionados às concentrações de proteína C-reativa mostrou que, para aqueles com transtorno bipolar, os níveis de PCR eram maiores durante os períodos de depressão (g de Hedges ajustada, 0,67; p = 0,003), eutimia (g de Hedges ajustada, 0,65; p < 0,0001), e, de forma mais significativa, mania (g de Hedges ajustada, 0,87; P < 0,0001).

Aumentos nas concentrações de proteína C-reativa não foram relacionados à gravidade dos sintomas na mania ou na depressão. Entretanto, as concentrações estavam moderadamente reduzidas após a resolução de um episódio índice de mania (p = 0,02) e estavam ligeiramente reduzidas após um episódio índice de depressão (P = 0,002).

As concentrações de proteína C-reativa não aumentaram com a duração do transtorno bipolar. Embora os medicamentos psiquiátricos tenham sido associados a aumentos nas concentrações de PCR, a análise mostrou que nos pacientes que usavam medicação para mania e depressão, as concentrações de proteína C-reativa eram menores do que nos pacientes que não estavam recebendo medicação.

Esses achados são consistentes com evidências anteriores indicando benefícios no tratamento de alguns transtornos psiquiátricos com medicamentos anti-inflamatórios, como aspirina e estatinas.

Em uma meta-análise publicada este ano pela mesma equipe de pesquisadores, as estatinas mostraram eficácia como tratamento complementar dos sintomas na depressão moderada a grave e justificaram uma investigação mais aprofundada.

"Se as estatinas e outros agentes anti-inflamatórios têm um papel no tratamento da depressão no contexto do transtorno bipolar, isso ainda precisa ser determinado", observam os autores.

Brisa disse que a proteína C-reativa parece representar uma medida importante a ser considerada no tratamento do transtorno bipolar.

"Como uma psiquiatra, eu avaliaria os níveis de proteína C-reativa em todos os meus pacientes", disse ela. Leia mais

"Níveis elevados de proteína C-reativa são um marcador bem definido de risco cardiovascular e o uso de drogas como as estatinas diminuem os níveis de PCR e a incidência de infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico."

"Uma vez que o transtorno bipolar também está associado a aumento do risco cardiovascular, esta seria uma outra razão para a avaliação rotineira da proteína C-reativa no transtorno".

Evidências disponíveis

Os autores de um comentário de acompanhamento destacam que foi demonstrado que os medicamentos para o transtorno bipolar, incluindo lítio e ácido valpróico, bem como alguns antidepressivos, têm efeitos anti-inflamatórios. Um estudo intrigante sugeriu que, para os pacientes que respondem ao lítio, as concentrações de proteína C-reativa podem ser significativamente reduzidas após o tratamento, em comparação com os pacientes que não respondem.

Outro importante estudo sobre o uso do anti-inflamatório infliximabe como terapia complementar para pacientes com depressão não mostrou efeito no geral, com uma importante exceção de pacientes com níveis de proteína C-reativa acima de 5 mg/l. Esses pacientes apresentaram reduções significativas nos sintomas depressivos.

"Os resultados sugerem que a proteína C-reativa pode ser um marcador para a resposta ao tratamento, o que é interessante", disse ao Medscape a coautora do comentário Dra. Marie Wium-Andersen, do Psychiatric Center Frederiksberg, na Dinamarca.

Uma questão ainda mais importante que a pesquisa levanta é se elevações em concentrações de proteína C-reativa e inflamação desempenham um papel causador no transtorno bipolar. Se sim, o tratamento anti-inflamatório poderia ter um efeito preventivo.

Mas a Dra. Marie observa a importância de distinguir entre proteína C-reativa e inflamação como fatores causais ao considerar tais teorias.

"A primeira sugeriria que, se o nível de proteína C-reativa isoladamente fosse reduzido, o risco de transtorno bipolar diminuiria, algo em que eu realmente não acredito", disse ela.

"Por outro lado, acho que a inflamação é um fator de risco para o transtorno bipolar, mas, é importante destacar, não é o único, e talvez apenas em um subgrupo de pacientes vulneráveis", explicou a Dra. Marie.

Ela comparou a relação entre inflamação e transtorno bipolar à relação entre diabetes e doença cardiovascular (DCV), na qual o diabetes é um fator de risco.

"Nem todos os pacientes com doença cardiovascular têm diabetes, e reduzir o nível de glicemia em todos os pacientes com DCV pode não ser benéfico.

"No momento, muito pouco realmente se conhece sobre como a inflamação pode causar transtorno bipolar e como ele pode ser tratado ou prevenido".

Os autores do estudo e do comentário declararam não possuir conflitos de interesse relevantes.

Lancet Psychiatry. Publicado on-line em 9 de novembro de 2016. Resumo, Comentário