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BLOG - As muitas batalhas contra a depressão.

12Mar2017

“O mais difícil é achar alguém para conversar. Eu só queria conversar. Mas é muito difícil encontrar uma pessoa que entenda o que estou passando, que não é uma questão de querer sair desse estado, de ir viver a vida. É uma questão de querer, mas não conseguir fazer isso.” O desabafo é da gaúcha Andressa Silva Montenegro, moradora de Porto Alegre. Nos últimos dezenove anos, Andressa, que tem apenas 27 anos, vive diariamente sob o peso da depressão. O que ela diz no relato acima é o que todos os pacientes falam ou desejam falar, mas quase ninguém escuta. Depressão é doença, e não falta de vontade, caráter ou fraqueza. E, infelizmente, trata-se de uma enfermidade que cresce no Brasil. Um relatório recente da Organização Mundial de Saúde revelou que o País é o primeiro em número de casos na América Latina e o quinto no ranking mundial. Cerca de 11,5 milhões de pessoas por aqui são depressivas.

São várias as razões que situam o País entre os primeiros colocados nas taxas de incidência. Primeiro, a única que pode ser considerada positiva: o diagnóstico hoje é mais fácil do que anos atrás. Todos os outros motivos têm raiz em boa parte no ambiente estressante que os brasileiros vivem há décadas. “O estresse é um dos gatilhos para o desencadeamento da depressão”, afirma o psiquiatra Ricardo Alberto Moreno, diretor do Programa de Transtornos Afetivos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. O problema recrudesceu nos últimos anos com o agravamento das crises política e econômica, fazendo aumentar a procura por ajuda. “Logo no início de seu relatório, a OMS pontua que o sofrimento com perdas é um dos fatores que levam à depressão”, explica o psiquiatra Antonio Geraldo da Silva, presidente eleito da Associação dos Psiquiatras da América Latina e diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria. “Tivemos muitas perdas, decepções com líderes nos quais muito acreditavam, queda na renda financeira. Tudo isso contribuiu para o aumento no total de casos no Brasil.”

“Tivemos muitas perdas, como a queda na renda financeira. Isso contribuiu para o aumento no total de casos no Brasil” Antonio Geraldo da Silva, psiquiatra, presidente eleito da Associação dos Psiquiatras da América Latina

Como a maioria das doenças, depressão tem tratamento. O grande problema, evidenciado nas palavras de Andressa, é o entendimento equivocado de que ela não passa de um estado de ânimo derivado de uma personalidade fraca ou preguiçosa. Esse erro seminal faz com que a luta do paciente seja ainda mais dura do que ela já é. Em vez de uma batalha, ele enfrenta várias. A primeira começa dentro dele mesmo, que também não entende ou não aceita sentir uma tristeza que não tem fim, uma apatia e uma falta de prazer na vida que em muitas casos tiram dele até a vontade de viver. “Tinha muita dificuldade de aceitar. E não achava coragem de falar no assunto com ninguém”, conta a arquiteta Isabela Soares, 42 anos, de São Paulo, ao lembrar-se de quando começou a perceber os primeiros sintomas, há pouco mais de um ano.

GENÉTICA E AMBIENTE

RISCO O estresse pode ser um gatilho para o surgimento da doença, segundo o psiquiatra Moreno

A resistência fica maior ainda quando a doença se instala em vidas assentadas como a de Isabela, com filho, marido, amigos. O questionamento sobre o por quê de tanta tristeza ganha um tamanho enorme. É preciso ficar claro que os sintomas são derivados de um desequilíbrio concreto entre substâncias cerebrais que mediam o humor e as emoções. Ele ocorre por uma combinação entre predisposição genética e ambiente. Os antidepressivos corrigem as diferenças fisiológicas e a psicoterapia atua nas questões psicológicas envolvidas.

O cenário em todo o mundo, no entanto, é o da desinformação. Não é à toa que grupos como o de Apoio às Pessoas com Depressão, de Niterói, ainda acolhem tanta gente em busca de explicações para o que sentem. “Muitas pessoas chegam sem ter ideia do que está acontecendo”, diz o psicanalista Lenilson Ferreira, fundador da iniciativa.

Depois de lidar com a própria angústia, o paciente tem que se ver com o preconceito de quem está do lado. Pode ser o marido, a esposa, o amigo. Desde que resolveu falar abertamente que tinha depressão, Isabela vem recebendo os relatos de gente que enfrenta o mesmo problema, mas sem a solidariedade dos mais próximos. “Ouço muita gente dizer que não tem o apoio dos familiares, por exemplo.”

A ARQUITETURA CEREBRAL DA DEPRESSÃO
Uma pesquisa divulgada na semana passada mostrou pela primeira vez que a depressão modifica a arquitetura cerebral, mas os antidepressivos revertem as alterações. A região atingida é o córtex cerebral, a matéria cinza na superfície do cérebro na qual está contida a maior parte das células nervosas do corpo e onde ocorre o maior número de conexões entre os neurônios.

O trabalho foi feito no Hospital da Criança de Los Angeles, nos EUA. Análises de imagens cerebrais obtidas de 80 voluntários (41 depressivos) mostraram que a doença aumenta a espessura da área. E quanto mais espessa, maior a severidade dos sintomas. Os remédios retardam esse processo, o que revela que atuam em outros mecanismos além dos conhecidos (sobre substâncias cerebrais associadas ao humor).

Os novos elementos no conhecimento sobre a enfermidade servirão de base para tratamentos diferentes dos atuais. “A capacidade de o cérebro se readaptar a partir dos remédios será mais um alvo a ser trabalhado”, disse à ISTOÉ Bradley Peterson, um dos autores do estudo. “Podemos pensar em outros medicamentos, estimulação eletrofisiológica ou intervenções comportamentais e psicológicas capazes de agir sobre isso.”

A gaúcha Andressa viveu tudo isso e ainda enfrentou outro obstáculo muito comum na vida dos pacientes: a mistura de pouca informação e preconceito por parte de profissionais de saúde que, por dever de ofício, deveriam, primeiro, saber identificar uma doença. Segundo, respeitar a pessoa que estão atendendo. Na primeira crise mais grave, sem ânimo para coisas básicas como tomar banho ou levantar-se da cama, ela ouviu da médica que a atendeu que deveria fazer exercício físico, tomar umas vitaminas e se esforçar. A médica simplesmente não tinha ideia do que estava falando. Em depressão, não se trata de “se esforçar”. O doente não faz porque não consegue.

Sem diagnóstico, Andressa não obteve atestado médico. Sem o documento, não justificou as faltas no trabalho. Terminou despedida por justa causa. À primeira experiência sucederam-se outras, igualmente traumáticas e humilhantes. Envolveram psiquiatras, gastroenterologistas (ela teve muita dor de estômago), peritos escalados para analisar seu caso em seus pedidos de licença remunerada. O que mais ouviu foi que tinha que ter força de vontade e ir trabalhar. Andressa só conseguiu o pagamento depois de entrar na Justiça.

“É muito difícil encontrar alguém que entenda o que estou passando. Não é uma questão de ir viver a vida. É uma questão de querer, mas não conseguir ” Andressa Montenegro,de Porto Alegre, 27 anos, diagnosticada aos oito anos

Uma rede de atendimento pouco acolhedora deixa sem tratamento uma imensidão de pacientes. Segundo dados da OMS, em muitos países menos de 10% das pessoas recebem medicação e orientação psicoterápica. A maioria restante sofre em silêncio, tem suas vidas suspensas e luta praticamente sozinha para não ceder aos pensamentos suicidas que vêm e vão. “No Brasil acontece um suicídio a cada 45 minutos”, informa o psiquiatra Antonio Geraldo da Silva. “Cerca de 38% deles têm por trás a depressão.”

O cenário mostra que há muito o que fazer para acabar com esse enredo, deixando no passado tragédias como a que vitimou a família do pequeno Pedro Luiz Ramos Nunes recentemente. O garoto morava com os pais, Fábio, 36 anos, e Thaise, 33 anos, em São Paulo. Aos cinco anos, ele foi morto pelo pai, em surto depressivo. Sem tratamento, Fábio matou o filho e a mulher e depois se matou.

A MENTE SOFRE
Segundo a OMS

• 322 milhões de pessoas no mundo têm depressão, a maioria mulheres

• No Brasil, são 11,5 milhões de indivíduos, o que equivale a 5,8% da população

• Entre 2005 e 2015, houve um aumento de 18% no total de casos no planeta

• A doença hoje é a principal causa de incapacidade

• Pode levar ao suicídio

• Menos de 10% dos pacientes recebem tratamento

Alguns sinais

• Cansaço que não passa
• Apatia
• Falta de prazer em atividades antes prazerosas
• distúrbios de sono (dormir muito ou pouco)
• dificuldade de concentração
• ideias suicidas

Há três graus:

1. Leve
A pessoa apresenta alguma dificuldade para atividades cotidianas, mas sem prejuízo na vida profissional e social

2. Moderado
Há maior impedimento para a execução de ações rotineiras, como trabalho ou convívio social

3. Grave
O paciente não consegue mais desempenhar suas ações sociais, profissionais ou domésticos

Fonte: IstoÉ